quinta-feira, dezembro 1, 2022
Google search engine
InícioCRÍTICA DE MÍDIAValor Econômico depõe Dilma Rousseff

Valor Econômico depõe Dilma Rousseff

Samuel Lima*

Na profusão de fatos gerados pelo terremoto político-jurídico-midiático, a partir das primeiras horas da manhã da última sexta-feira (04/03), com a “condução coercitiva” do ex-presidente Lula, em São Paulo, o jornal Valor Econômico “navegou” na crista da onda e brindou o distinto público com uma esdrúxula edição (sábado, domingo e segunda-feira, 5, 6 e 07 de março de 2016).

O Valor não deixou por menos e depôs Dilma Rousseff: “Mercado já opera com mudança de governo” (veja imagem). O texto, assinado pela jornalista Claudia Safatle, diretora adjunta de redação da sucursal de Brasília, é um arrazoado político que busca se sustentar em dados financeiros, gerados pela movimentação esotérica do “deus” mercado.

2016 03 08 Capa Valor ed. 07032016

Safatle escreveu: “O avanço da Operação Lava-Jato abre dois caminhos para a economia brasileira: o de uma paralisia ainda maior do governo Dilma Rousseff ou o da real possibilidade de mudança. Foi com essa visão binária que os mercados reagiram, na sexta-feira, à condução coercitiva do ex-presidente Lula para prestar depoimento na Polícia Federal, em São Paulo”.

O texto contém um erro de informação: o local não foi a Polícia Federal, mas sim o aeroporto de Congonhas, porque o destino de Lula era Curitiba – esse era o desejo do juiz Sérgio Moro. No entanto, a operação foi “abortada” no meio do caminho… Na sede da PF, na capital paranaense, já havia mobilização e a presença do impoluto deputado Jair Bolsonaro, que soltava rojões comemorando a “prisão de Lula”.

Mercado dividido?

O que me causou espanto não foi apenas o texto de capa do Valor, cujo sentido obscuro das forças ocultas, subjacentes ao vernáculo “mercado”, mas especialmente o título da página A5: “Mercado se divide sobre o sentido da Lava-Jato” (confira imagem), igualmente assinado por Safatle. Não há, rigorosamente, nenhuma mísera informação que sustente esse título.

2016 03 08 Valor PÁGINA A5 ed. 07032016

Li e reli a reportagem de capa (página A5) e ali só encontrei o detalhamento dos sinais emitidos pelos “deuses” do mercado financeiro, sob intenso movimento especulativo lastreado pelo terremoto desencadeado pelo juiz Moro: “O comportamento dos mercados na sexta-feira reforçou essa expectativa. A Bolsa de Valores fechou em alta de 4,01%, aos 49.085 pontos. A valorização do real frente ao dólar, que bateu na mínima de R$ 3,65, foi uma primeira demonstração do ganho cambial que haveria com a perspectiva de uma política econômica mais austera conduzida por uma nova administração. A depreciação do câmbio hoje é uma das mais relevantes fontes de inflação. O dólar encerrou o dia cotado a R$ 3,75”.

De todo modo permanece a dúvida: qual a informação é verdadeira? A manchete diz que o “mercado já opera com mudança de governo”, mas o título da matéria (p. A5) ressalva que essa mesma entidade mística “se divide sobre o sentido da Lava-Jato”.

O que fica patente, a meu modesto juízo, é a pressa em faturar politicamente. Para além do protagonismo político-partidário, causa total estranheza que um jornal da qualidade do Valor Econômico se deixe contaminar pela narrativa rastaquera e totalmente enviesada que percorreu os quatros cantos do monopólio de mídia, desde a madrugada de 04 de março.

Mídia-Mercado: o golpe deu ruim…

O que se pode concluir, à guisa de breve reflexão provisória e no meio da travessia, é que a santa aliança mídia-mercado deu com os burros n’água. Agindo em sintonia com os operadores da Lava-Jato, os principais veículos armaram um espetáculo de repercussão mundial.

Para os portais noticiosos de grandes veículos internacionais (cujas manchetes eu ouvi num rádio de táxi, no trânsito, naquela manhã, em Brasília), a operação “Aletheia” (verdade, em grego), desencadeada por Moro e seus auxiliares, o ex-presidente Lula fora preso, acusado de corrupção no caso Petrobras. Nenhuma palavra publicada retornará à fonte.

No entanto, o que exatamente deu ruim na ideia planejada (e sonhada há dois anos por Moro)? Para a professora e pesquisadora Sylvia Debossan Moretzsohn (UFF), “já pela manhã alguma coisa começou a fugir do script. A notícia de que o ex-presidente estava depondo no posto da Polícia Federal no aeroporto de Congonhas gerou um tumulto que confrontou partidários e opositores do PT. O jogo virou quando, depois de liberado, Lula dirigiu-se à sede de seu partido e abriu o verbo, num discurso de quase meia hora que misturou indignação e ironia e foi transmitido ao vivo pela televisão” (Fonte – objETHOS: http://migre.me/tb3XC).

Surpresa geral, para quem esperava encontrar o ex-presidente Lula alquebrado e de cabeça baixa. Sylvia lembra que a jornalista Natuza Nery, que edita a coluna Painel (Folha de S. Paulo), publicou: “Há meses se dizia: um erro na Lava Jato transformaria Lula em vítima. E há meses petistas diziam que isso fatalmente ocorreria”. Ao que tudo indica, o dia chegou…

O vazamento da informação para os setores da mídia hegemônica que comandam o “espetáculo” também não foi disfarçado, como anotou precisamente a pesquisadora: “Ainda no início da madrugada, o editor-chefe da revista Época, Diego Escosteguy, nem se preocupava em disfarçar a informação privilegiada que recebera: pelo twitter, alimentava as expectativas para o amanhecer que teria “tudo para ser especial, cheio de paz e amor” e tripudiava dos que, encurralados, estariam com seu “destino selado”. Os tweets de Escosteguy tornaram-se públicos, nas redes sociais.

Os porta-vozes do esquema mídia-mercado-moro pareciam perplexos e repetiram, durante toda a extensa cobertura, chavões na vã tentativa de convencer os incautos e midiotas. Na edição do Jornal Nacional (TV Globo) daquela noite, pesou a mão e o desequilíbrio foi total, sem pudor, desnudo: a jornalista Bia Barbosa, do Coletivo Intervozes, checou o tempo: “Sem uma única crítica à operação, Jornal Nacional dedicou 85% do tempo a acusações contra Lula” (Fonte: http://migre.me/tb5wJ).

Bia minutou os blocos mais importantes: a) “Primeiro bloco do JN: 21 minutos de matérias, e nada mais que cinquenta segundos (25 vezes menos) com a posição da defesa; b) Segundo bloco: mais 15 minutos de matérias. Vinte segundos com a posição do ex-presidente e 20 segundos com uma fala de Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula; na matéria sobre o tríplex do Guarujá, sete segundos para citar a nota do Instituto Lula em 2 minutos e cinquenta segundos de reportagem; c) Quase 40 minutos desde o início do JN tinham se passado quando foi ao ar a primeira fala de Lula, na matéria sobre a declaração que ele fez à imprensa e à militância na sede do Diretório Nacional do PT. Lula teve voz por sete minutos e meio. Um minuto e quinze de Dilma criticando a operação vieram na sequência”.

Uma das vozes mais contundentes contra a condução “coercitiva” foi o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal. Na contramão do linchamento midiático, Mello alertou: “Condução coercitiva? O que é isso? Eu não compreendi. Só se conduz coercitivamente, ou, como se dizia antigamente, debaixo de vara, o cidadão que resiste e não comparece para depor. E o Lula não foi intimado. Se quiserem te ouvir, vão fazer a mesma coisa? Conosco e com qualquer cidadão?”.

E valho-me da palavra lúcida do ministro para concluir: “A pior ditadura é a do Judiciário”. A ver os desdobramentos da Lava-Jato nos próximos dias, horas…

[divider style=”solid” top=”20″ bottom=”20″]

*Professor da UFSC e pesquisador do Laboratório de Sociologia do Trabalho (LASTRO/UFSC) e do objETHOS

RELATED ARTICLES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Most Popular

Recent Comments

Daniel A. Santos on Legislação dos jornalistas
Antônio Carlos Costa on As multidões e os protestos
FERNANDO MARGHETTI NUNES on Dez desejos para o jornalismo em 2016
leonelcamasao on Legislação dos jornalistas
Maria Tercilia Bastos on Nota de pesar
valmor on Convênios
Vilma Gomes Pinho on Convênios