Categoria aponta defasagem histórica em meio a aumento das verbas públicas nos meios comunicação; em seis anos, empresas receberam mais de meio bilhão em publicidade do governo do Estado
A Câmara Municipal de Florianópolis aprovou uma moção de apoio à campanha salarial dos jornalistas de Santa Catarina e à valorização profissional da categoria. A iniciativa, apresentada pelo vereador Camasão (PSOL), ocorre em meio ao impasse nas negociações entre o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina (SJSC) e o sindicato patronal para a renovação da Convenção Coletiva de Trabalho.
Ao defender a moção no plenário, Camasão destacou a defasagem salarial dos jornalistas catarinenses, a precarização das relações de trabalho e a importância social do jornalismo em um cenário marcado pela disseminação de desinformação.
Jornalista e ex-diretor do SJSC, Camasão lembrou que o atual piso salarial da categoria em Santa Catarina é de R$ 3.399,54 e defendeu a reivindicação apresentada pelos trabalhadores na campanha salarial deste ano: a criação de um novo piso de R$ 5.170 —fruto de um estudo independente encomendado pelo sindicato dos trabalhadores.
Para dimensionar a defasagem, o vereador comparou a remuneração dos jornalistas com a dos trabalhadores do transporte coletivo, que ganham mais que jornalistas mesmo exigindo menos qualificação profissional.
Durante o discurso, o vereador Gemada (Podemos) acrescentou dados atuais à comparação. Segundo ele, hoje um motorista de ônibus recebe salário bruto de aproximadamente R$ 4 mil, além de R$ 1,2 mil em vale.
Gemada fez questão de ressaltar que a comparação não deveria servir para questionar a remuneração conquistada pelos trabalhadores do transporte coletivo, mas para evidenciar a defasagem dos jornalistas: “Não é o salário do motorista que está bom, é o do jornalista que está ruim”, afirmou.
Camasão concordou e destacou que não se trata de estabelecer uma hierarquia entre profissões. Chamou atenção, porém, para o fato de o jornalismo ser uma atividade profissional que exige formação superior e cujo piso permanece em patamar muito baixo diante das exigências da profissão e do custo de vida no estado.
O vereador atribuiu parte dessa diferença à capacidade de organização coletiva construída historicamente pelos trabalhadores do transporte. Segundo Camasão, o Sintraturb consolidou-se como um sindicato com forte mobilização, inclusive com a realização de greves, que resultaram em conquistas salariais e trabalhistas.
No jornalismo, avaliou, ocorreu um movimento inverso nos últimos anos, com o avanço da pejotização, a redução das contratações pela CLT e mudanças na legislação trabalhista que contribuíram para enfraquecer a capacidade de mobilização coletiva.
Camasão também relacionou a reivindicação salarial ao custo de vida em cidades como Florianópolis, Joinville e Blumenau e lembrou que Santa Catarina registra preços elevados de aluguel e da cesta básica. “O salário de R$ 5.170 é um salário para recompor um pouco da dignidade dessa profissão”, afirmou.
Jornalismo valorizado para enfrentar a desinformação
Outro ponto destacado no plenário foi a contradição entre a deterioração das condições de trabalho e a crescente importância social do jornalismo.
O vereador proponente da moção chamou atenção para a circulação de desinformação nas redes sociais, inclusive em áreas como saúde e nutrição, e argumentou que jornalistas profissionais cumprem uma função essencial na mediação das informações que chegam à sociedade.
Para Camasão, a desvalorização salarial ocorre justamente em um momento no qual a produção de informação profissional e com credibilidade se torna ainda mais necessária.
Ao final do pronunciamento, Camasão pediu apoio dos demais parlamentares à mobilização da categoria. A moção foi colocada em votação e aprovada por unanimidade pelos 17 vereadores presentes na sessão.
Empresas recusam qualquer tipo de ganho real
A manifestação da Câmara ocorre enquanto os jornalistas de Santa Catarina seguem em campanha salarial para a renovação das cláusulas econômicas da Convenção Coletiva de Trabalho.
Na reunião mais recente entre representantes dos trabalhadores e das empresas, realizada sob mediação da Secretaria Regional do Trabalho e Emprego, o SJSC apresentou alternativas para tentar superar o impasse. Ao final do encontro, a representação patronal se comprometeu a analisar três propostas.
A primeira é antecipar o pagamento do INPC retroativo a maio, considerando que a reposição pelo índice inflacionário já havia sido apresentada pelos próprios empregadores durante a negociação.
A segunda alternativa diz respeito ao piso salarial. Diante da recusa das empresas em implantar o novo piso de R$ 5.170 reivindicado pelos jornalistas, o Sindicato propôs que fosse aplicado, ao menos, o índice de reajuste do Piso Regional de Santa Catarina, de 6,49%. A proposta prevê ainda a possibilidade de criação de uma comissão paritária entre trabalhadores e empresas para discutir a construção de um novo piso para a categoria.
Como terceira alternativa, caso o impasse permanecesse, o SJSC propôs que as empresas concordassem em submeter a negociação à Justiça do Trabalho, permitindo que o conflito fosse analisado e tivesse uma solução justa para a categoria.
Apesar do compromisso assumido na reunião de analisar as alternativas, o representante das empresas comunicou ao SJSC que não atenderia nenhum dos três pontos, mantendo somente a proposta de recomposição da inflação, sem qualquer possibilidade de aumento real para categoria.
A resposta agrava o impasse da campanha salarial e mantém sem solução tanto a recomposição dos salários quanto a discussão sobre um novo piso profissional, que tem uma defasagem de mais de R$ 1.500 em relação a média dos salários de entrada dos jornalistas no Brasil, segundo aponta o estudo elaborado pela Mulinari Assessoria Econômica.
O SJSC defende que a negociação considere não apenas as perdas inflacionárias, mas também a defasagem acumulada dos salários e a deterioração das condições de trabalho, marcada pelo avanço da pejotização, acúmulo de funções, redução das equipes e outras formas de precarização.
A aprovação da moção pela Câmara de Florianópolis reforça o apoio institucional à reivindicação dos jornalistas por salários dignos, valorização profissional e melhores condições de trabalho.
Empresas receberam R$ 565 milhões em verbas públicas do Estado
O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina tem insistido na abertura de um canal de diálogo com as empresas de comunicação para a definição de um novo piso salarial para a categoria, que considere tanto a realidade econômica e financeira do setor quanto o aumento do custo de vida e a defasagem histórica dos salários dos jornalistas. As empresas, no entanto, têm se recusado a apresentar seus balanços para subsidiar essa discussão, limitando-se a alegar dificuldades financeiras.
Na tentativa de reunir informações para qualificar o debate, o SJSC realizou um levantamento das despesas públicas com publicidade e identificou que, desde 2020, os meios de comunicação de Santa Catarina receberam cerca de R$ 565 milhões em verbas publicitárias do Governo do Estado.
Somente em 2025, ano com o maior volume de recursos públicos destinados à publicidade no período analisado, foram R$ 163 milhões. Os grupos NSC e ND+ lideram o ranking de destinatários dessas verbas, segundo o levantamento do Sindicato.
O SJSC não se opõe ao investimento público na imprensa profissional. Ao contrário, reconhece o papel dos meios de comunicação na circulação de informações de interesse público. A entidade alerta, porém, que a distribuição desses recursos deve observar critérios de transparência, isonomia e interesse público e também contribuir para fortalecer o jornalismo profissional.
Afinal, os recursos destinados à publicidade oficial são provenientes dos contribuintes e têm, entre suas finalidades, fazer com que informações e campanhas públicas cheguem à população. Para o Sindicato, o investimento público nos meios de comunicação deve caminhar junto com a valorização dos profissionais responsáveis pela produção da informação, com remuneração e condições de trabalho compatíveis com a importância social da atividade.


