segunda-feira, novembro 28, 2022
Google search engine
InícioOPINIÃOA imprensa na América Latina

A imprensa na América Latina

Transformações sociais decorrentes de ditaduras democraticamente transvestidas

Existe um ditado popular que diz que se queremos saber o que vem pela frente, devemos perguntar a quem está voltando. A imprensa em toda a América Latina está sofrendo profundas transformações. Fomentada por governos ditatoriais democraticamente transvestidos, a liberdade de imprensa sorrateiramente tem sido cerceada a cada dia. Talvez seja o momento de consultarmos os jornalistas que atuaram nos anos de 1964 a 1985, período da ditadura no Brasil.

A imprensa daquela época requeria de seus repórteres mais do que habilidades para escrever e capacidade intelectual para analisar situações. Era necessário sagacidade para se desvencilhar dos espiões do SNI (Serviço Nacional de Informação) e muito fôlego para as reportagens de rua, caso necessitasse usar uma das mais antigas habilidades humanas: correr.

Foram 21 anos de opressão, perseguição, mortes, acusações infundadas, mentiras reverberadas pelos órgãos oficiais de comunicação do governo vigente com o intuito de distrair a atenção das massas para o que de verdade ocorria no país. Enquanto isto, dentro das redações a censura se acomodava, com as botas sobre a mesa, um charuto cubano na mão e muitas ameaças, sendo que algumas até de morte, posteriormente cumpridas em algumas vítimas.

Hoje, 25 anos após o fim da ditadura no Brasil, uma nova ameaça começa a tomar forma em todo o continente Americano. Governos ditatoriais implantados nas Republicas da Venezuela, com Hugo Chaves, Bolívia, com Evo Morales, Argentina, com Cristina kirschner e no Brasil, com os conglomerados de comunicação, empresários e seus asseclas no Senado, Câmara Federal e repartições públicas de todo o país, fazem ressurgir a censura e regulação de órgãos de comunicação, segundo princípios corporativos e governamentais. Nunca segundo a vontade do povo!

Trata-se de um grande complô com a finalidade de perpetuar grupos e líderes no poder, tirando do caminho os que primeiro se levantam e denunciam tais práticas tão enraizadas nas elites dominantes como corrupção com a coisa pública. Ou seja, querem silenciar a imprensa que é um instrumento fundamental para a manutenção da democracia.

É claro que há corruptos e corruptores dos dois lados, pois em todos os países do mundo existe a imprensa ávida por lucro, aquela que transforma a notícia em um produto e manipula segundo seus interesses ou de seus financiadores. E é justamente no meio deste fogo cruzado que atualmente os jornalistas se encontram. De um lado a imprensa golpista, sem generalizar, são apenas uma parcela do grande contingente de veículos e, geralmente, os conglomerados, e de outro lado os governos.
Analisemos a questão da obrigatoriedade do diploma para a profissão de jornalista, derrubada pelo Supremo Tribunal Federal, mas que por meio de PEC (Projetos de Emenda à Constituição) na Câmara dos Deputados, ameaça voltar à validade. Quem perde e quem ganha com a não obrigatoriedade do diploma para exercício da função?

Quem ganha são os conglomerados que terão profissionais – quando o forem – habilitados em outras áreas, sem comprometimento com o código de ética dos jornalistas, que defenderão apenas a visão patronal para manutenção de seus empregos, derrubando os salários acertados por meio de acordos entre sindicatos e transformando o factual em opinativo. Ou seja, o jornalista por formação é um profissional genérico que entende de tudo um pouco – ou um pouco de tudo – e é responsável por descrever da forma mais acessível possível os acontecimentos ao seu público. O jornalista não formado será um profissional com visão limitada e delimitada, segundo sua formação.

Façamos então o que está proposto na primeira linha deste artigo, que é perguntar a quem atuou em redação no período anterior, durante e após à ditadura militar. Um dos mais célebres jornalistas brasileiros, Alberto Dines, diz o seguinte no livro “O papel do jornal”, editora Summus (1986).

“Embora seja formado em coisa alguma, muito menos em jornalismo, desde 1963 – com apenas 11 anos de experiência profissional – senti a necessidade de associar-me a uma escola (no caso a PUC Rio) para sistematizar e organizar minha experiência. Este tipo de associação nunca deixou de apresentar grandes vantagens para mim, porque é na sala de aula, no exercício da teoria e na avaliação da prática, que o profissional pode enxergar mais longe. A reflexão não precisa necessariamente ser convertida em pomposas doutrinas, mas pode converter-se em conceitos e, sobretudo, ideais.

Não existe melhor lugar para usinar a prática com a teoria do que na universidade. Quem aprende gramática, escreve com correção, quem pensa bem, escreve bem, mas existem técnicas jornalísticas e filosofias do jornalismo que precisam ser trabalhadas conjuntamente, longe da correria dos ‘fechamentos’, das injunções e precariedades do dia a dia. A sala de aula, conveniente e necessariamente equipada – em termos materiais como humanos – é insubstituível para fundir ética com técnica, ideal com real, de modo a impedir que algumas vestais, quando lhes dá na veneta, atribuam-se o papel autoritário do pontificar sobre o que é certo ou errado.

A campanha contra o ensino do jornalismo, a pretexto de proteger a imprensa do abominável licenciamento, na verdade, inspira-se em aberração autoritária ainda maior – a crença de que o jornalismo é apenas ‘vocação’ sem compromissos maiores com a sociedade, missão para alguns iluminados escolhidos por outros coleguinhas iluminados que galgaram o poder ou receberam de mão beijada”. (Alberto Dines – O papel do jornal, 6ª edição, página 22, editora Summus).

Percebe-se que Dines é enfático ao referir-se à importância do ensino, educação, busca de conhecimento e isto sempre atrelado a universidade. Se querem acabar com a graduação, que transformem o jornalismo apenas em especialização onde profissionais de outras áreas poderão adentrar ao mundo da notícia, aprendendo técnicas, filosofia, ética e como portar-se no segmento de comunicação, dentre outras necessidades não menos importantes.

O que não pode é deixar sem regulamentação, com brecha jurídica para todo tipo de interpretação uma área tão importante para a sociedade. Somente poucas pessoas entenderam a verdadeira importância de discutir o tema e posicionar-se a respeito. O que está em jogo não é apenas o segmento de comunicação, liberdade de imprensa e direitos trabalhistas, mas sim a democracia, o direito à informação de qualidade e o perpétuo combate à corrupção e maus hábitos dos que governam as nações.

Neste momento de incertezas quanto ao futuro da profissão, é oportuno que a categoria estudantil, de todos os cursos, entidades como OAB (Ordem dos Advogados) que já aderiu à causa, instituições de classe, sindicatos, associações, universidades e pessoas públicas verdadeiramente comprometidas com a nação manifestem apoio à luta do jornalismo que é a mesma luta pela manutenção da democracia, liberdade de imprensa e regulamentação das profissões.

Um país sem pessoas devidamente educadas nas escolas, conhecedoras dos seus direitos e deveres e que conduzam suas próprias vidas estará sempre sujeito ao canibalismo corporativo e governamental de líderes sem escrúpulos e que visam o lucro a qualquer preço. Olhem para a Amazônia sendo devastada por fazendeiros políticos ou políticos a serviço do Capital, olhem para o interior do país onde não há água encanada, esgoto, infraestrutura e votos são comprados por míseros centavos, mas que para quem compra é o pão que vai matar a fome.

Quem denunciará tais abusos?

Osni Alves J
Jornalista SC3416JP
msn: osni.reporter@hotmail.com
blog: www.osnialvesj.blogspot.com
twitter: osnialvesj

Autor:Osni Alves JJornalista

RELATED ARTICLES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Most Popular

Recent Comments

Daniel A. Santos on Legislação dos jornalistas
Antônio Carlos Costa on As multidões e os protestos
FERNANDO MARGHETTI NUNES on Dez desejos para o jornalismo em 2016
leonelcamasao on Legislação dos jornalistas
Maria Tercilia Bastos on Nota de pesar
valmor on Convênios
Vilma Gomes Pinho on Convênios