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Twitter. A ruptura com as fontes tradicionais

30.11.2010 – O twitter pode acrescentar algo à política, já nem toda a política passa pelo twitter. A opinião é de Roberto Samar e Marcelo García, integrantes do Departamento de Comunicação do Capítulo Buenos Aires da Sociedade Internacional para o Desenvolvimento, em artigo publicado pelo Página/12, 24-11-2010. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo:

As novas tecnologias da comunicação – e, sobretudo os seus novos usos – têm e continuam redesenhando o espaço público. Nesse trânsito, reelaboram vínculos e relações em todos os âmbitos. O espaço não é o que era, mas tampouco o que será. As relações se tornam mais fluídas, mutantes e flutuantes. É o caso da relação entre a política e a plataforma do micro-blogging chamado twitter.

Politweets, assim faz algum tempo é como o chamam os amantes dos neologismos, ainda mais quando soam bem. Da mesma forma se poderia chamar politwita a avalanche de participação micro-digital de atores públicos, começando pela própria Presidenta. A politwita gera cada vez mais notwicias, algumas inclusive chegam até as manchetes dos jornais. Marco da fascinação pelo novo meio foi a manchete do jornal Clarín de 27 de setembro: “A Presidente atacou a Justiça por Fibertal através do twitter”. O meio como mensagem algum disse. Nesse caso, também a notícia.

Os efeitos são contraditórios. Na plataforma neutra, Twitter é um gatekeeper transparente e na mídia é um espelho. Espelho da palavra dos atores, cujas palavras aparecem neste novo espaço público virtual tal e como surgem de suas bocas (ou dedos). O ciclo de notícias como o conhecemos desde o surgimento da grande imprensa moderna (fonte, gatekeeper, editor, meio, público) muda à luz de uma mediação inanimada e um variedade de rebelião das fontes que se animam a se dirigir diretamente ao público.

Matem o gatekeeper, bem poderia ser a bandeira das disputas midiáticas desses tempos em nossos países. A liberdade de expressão prima sobre a liberdade (ou a necessidade de existência) da imprensa. Uma boa notícia em tempos mais empresariais que profissionais da imprensa (pós)moderna. Não é notícia que a Sociedade Interamericana de Imprensa goste. Aquela nota do Clarín começou com esta linha: “O dia de ontem foi outro dia sem contato da Presidente com os jornalistas que cobrem sua agenda”. E acrescentou: “Ao cair da noite, a Presidente voltou a twittear”. A imagem é ilustrativa por si mesma: jornalistas no hall de um hotel em Nova York, fonte em algum lugar do hotel enviando ao destinatário a mensagem que outrora era mediado por ele.

O espelho twitter tem as suas regras. A principal são os 140 caracteres. As idéias em busca de palavras com efeito mais imediato tendem a ser mais superficiais e os debates mais profundos quem sabe – apenas quem sabe – nasçam mortos. Aprofunda-se a tendência a se pensar a política como um espetáculo que constrói a sua agenda a partir de frases mais próximas ao marketing da política do que a sua argumentação. Twitter, por condição técnica e uso corrente atual tende mais ao diálogo contraditório do que ao debate edificante.

As vezes o mundo se mostra ao revés. Em pleno conflito de colégios ocupados em Buenos Aires durante este ano, os nativos digitais – protagonistas da iniciativa – discorriam sobre leituras do marxismo clássico, enquanto a ex-vice chefe do governo, Gabriela Michetti escrevia no twitter que no lugar de fazer política os alunos deveriam ajudar a recuperar os colégios. A fascinação dos novos imigrantes digitais lhes pode fazer perder sentido político, ali onde os nascidos digitais a assumem como natural e a põem no justo lugar. O twitter pode acrescentar à política, mas nem toda a política pode passar pelo twitter.

Incidir na construção da realidade e aprofundar políticas públicas a médio e longo prazo apresentam o desafio de trabalhar a problemática comunicacional no complementar mais do que no absoluto. Apenas assim uma tecnologia naturalizada poderá acrescentar mais do reduzir ou degradar as práticas. O recente caso da publicação de documentos classificados por parte de Wikileaks é, quem sem sabe, um avanço em um novo paradigma. Wikileaks tinha milhares de documentos para publicar, mas não o fez sozinho. Recorreu a três dos gatekeepers mais conhecidos do planeta (The New York Times, The Guardian, Der Spiegel). Para o público, o resultado não poderia ter sido melhor: a informação na web a crú e analisada e interpretada pelos jornais. Nada que caiba em 140 caracteres.

Por Marcelo Garcia e Marcelo Samar. Publicado no site do Instituto Humanitas Unisinos

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