quinta-feira, dezembro 1, 2022
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Onde houver certeza, que os jornalistas levem a dúvida

Evandro de Assis
Mestrando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS

Os quase dois anos de bravatas eleitorais que culminaram na escolha de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos chamaram à responsabilidade empresas de mídia, da nova e da velha. Boatos, informações falsas travestidas de jornalismo e teorias da conspiração envenenaram o ambiente democrático, beneficiaram quem enxergou oportunidade na confusão e expuseram fraquezas dos filtros hoje disponíveis.

Pressionados, Facebook e Google anunciaram (tardiamente) medidas para aprimorar algoritmos contra a disseminação de boatos e notícias falsas. Observadores criticaram jornalistas e veículos por não fazer o suficiente para denunciar as contradições de Trump e entender os eleitores dele. Uma parte importante da sociedade americana estava à margem da mídia. Seria preciso ouvi-la.

Foi o que fez a âncora da CNN Alisyn Camerota. Ela reuniu um grupo de eleitores de Trump após a eleição e os provocou a provar a acusação de que milhões de pessoas votaram ilegalmente (em Hillary Clinton) – invenção do próprio Trump para justificar a derrota no voto popular.

O diálogo, que pode ser visto neste link, beira à surrealidade:

– Votar é um privilégio neste país, e você precisa estar legal para votar. Não como na Califórnia, em que três milhões de ilegais votaram – acusa a eleitora.
– Onde você conseguiu sua informação?
– Na mídia!
– Qual mídia?
– CNN, acredito.
– A CNN disse que 3 milhões de pessoas votaram ilegalmente na Califórnia? – questiona a apresentadora, incrédula.
– Por toda a mídia!
[…]
– Você ouviu o presidente Obama dizer que pessoais ilegais poderiam votar?
– Sim! – respondem os cinco convidados.
– Onde?
– Dê um Google! Você pode encontrar isto no Facebook – diz outra eleitora, com ar sabichão.

A apresentadora segue a orientação, e após alguns minutos consultando o celular, responde:

– Obama não disse nada disso, basta ver a transcrição do discurso.
– Eu acredito que houve fraude de votação em alguns estados –  insiste a eleitora.
– Três milhões de pessoas?
– A Califórnia autorizou.
– Você acredita que a Califórnia autorizou uma fraude?
– Acredito que houve fraude neste país – conclui a eleitora.

Como e para quê fazer jornalismo se os espectadores não estão interessados em informações que ponham em dúvida suas convicções? Procurar saídas desta encruzilhada é essencial para as democracias do século XXI, porque a combinação de fatores que vem gerando desinformação e incerteza em diferentes países tende a se agravar.

Primeiro, os cidadãos cada vez mais apoiam suas opiniões em informações que coletam online e não há nada que leve a crer numa reversão. Conforme o Reuters Institute Digital Report 2016, uma parcela crescente das populações de 26 países pesquisados tem com a timeline do Facebook a mesma relação que mantinha com uma capa de jornal. Ou seja, o Vale do Silício terá ainda maior responsabilidade sobre a qualidade do ambiente democrático.

Em segundo lugar, a crise no modelo de negócios da imprensa tem deixado comunidades inteiras sem jornalismo independente, com veículos fechando as portas ou reduzindo drasticamente a cobertura. Garantir meios de se produzir informação confiável não é um problema restrito às empresas de mídia, como se pode perceber, e os avanços têm sido pouco animadores.

Terceiro, governos, empresas e organizações com os mais diversos interesses se adaptam aos fluxos de informações online e criam mecanismos cada vez mais eficazes de propaganda. O Guardian listou casos em que notícias falsas geraram impactos em diversos países do mundo. Há indícios, por exemplo, de que o governo russo ajudou a difundir na Alemanha a informação de que uma adolescente fora estuprada por refugiados em Berlim. O assunto ajudou a inflar argumentos xenófobos da extrema direita alemã e atingiu Angela Merkel, que busca a reeleição.

No Brasil, o clima em que se efetivou o impeachment da presidente Dilma Rousseff estava contaminado por mentiras disparadas e compartilhadas por interessados na queda da petista. Quando o procedimento no Congresso avançava, em abril, eram falsas três das cinco notícias mais compartilhadas no Facebook brasileiro. Todas atacando Dilma e o PT.

O papel dos jornalistas

Ainda que Facebook e Google consigam tornar irrelevantes publicações maliciosas, e que se encontre um meio de sustentar economicamente projetos jornalísticos online, reduzindo os danos de ações deliberadas de desinformação, cabe aos jornalistas enfrentar talvez a tarefa mais difícil: convencer as pessoas de que nenhuma crença ou convicção as isenta de pensar, duvidar e questionar a realidade mediada.

Antes encastelados pela escassez de informações, jornalistas e veículos mantiveram seus procedimentos ocultos do público, postura corporativista que fazia parte do esforço de legitimar a profissão. O problema é que com a queda dos portões guardados pelos jornalistas, os usuários da mídia tiveram acesso ao poder de informar sem refletir sobre a responsabilidade inerente.

É necessário compartilhar com o público práticas, normas e dilemas da atividade de separar o joio do trigo. Um processo educativo em que jornalistas estejam dispostos a ensinar e aprender, com transparência e disposição para ouvir e adaptar-se. Mais do que expor (e até ridicularizar) o discurso contraditório de cidadãos desinformados, é preciso transformá-los em aliados do jornalismo, e não adversários. Sem o envolvimento dos verdadeiros interessados na melhoria da esfera pública, não há Mark Zuckerberg que dê jeito na confusão em que estamos metidos.

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