InícioOPINIÃO"Demissões sem escalas", por Celso Schröder

“Demissões sem escalas”, por Celso Schröder

Celso Augusto Schröder
Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ

Existem várias maneiras de se terminar relações, anunciar rompimentos ou demitir pessoas. A pior forma é aquela que, além da ruptura, utiliza do cinismo e da grosseria. O presidente da RBS, o mais importante grupo de comunicação da região sul, Eduardo Sirotsky Melzer, abusa de todas. O neto do patriarca Maurício Sirotsky Sobrinho, primeiro através de uma videoconferência e, depois, por meio de um texto distribuído a todos os empregados do grupo, anuncia a demissão inicial de 130 funcionários, contribuindo para uma prática que se consolida nas empresas de comunicação do sul do país.

Chamando seus empregados de “colegas” e “colaboradores”, eufemismo largamente empregado pelos novos gestores do liberalismo radical, o próprio presidente anuncia o eminente apocalipse. A exemplo do personagem de George Clooney no filme “Amor Sem Escalas”, Melzer estranhamente admite a saúde das inúmeras empresas, depois não só espera a compreensão antecipada dos futuros “degolados” como pede apoio às mudanças que têm, confessadamente, o objetivo de fortalecer a empresa.

O novo “empresário” atribui uma espécie de inexorabilidade às suas dramáticas decisões a partir de uma análise que nem mesmo no setor é unanimidade. As últimas reformas gráficas do jornal Zero Hora já denotavam uma aposta no fim do jornalismo e, portanto, uma mudança radical no modelo de negócio, enquanto grandes títulos como o New York Times radicalizam suas apostas no Jornalismo.

Arriscando uma intimidade que corre o risco de ser tomada como provável ironia, o comunicado é assinado singelamente como “Duda”. O apelido acaba por dar um ar sinistro a esta espécie de sentença de morte, que até quarta-feira, quando sairá a lista fatídica, será de todos os empregados da RBS nos dois estados.

Como no filme “Amor Sem Escalas”, nem a pretensa juventude do algoz, ou o glamour “high-tech” da empresa, esconde o cheiro de velho na degola em massa de empregados que serve para dar conta de erros ou volúpia por experimentações administrativas. Esperemos que o desastrado – e de péssimo gosto – ato de “coragem” e “desprendimento” não tenha a dimensão trágica do filme.

Desde a época do seu patriarca Maurício Sirotsky, a empresa recorre ao mesmo expediente de tempos em tempos para, enxugando a folha de pagamento, garantir um natal melhor para os seus “netinhos”. A ceia até poderá estar mais farta para a família Sirotsky neste dezembro, mas a RBS certamente não poderá se livrar do incômodo odor do descrédito e da falta de confiança, componentes indispensáveis para quem tem a pretensão de viver do negócio do jornalismo e afins.

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