InícioOPINIÃOO menino, o deputado e o jornalismo genuíno

O menino, o deputado e o jornalismo genuíno

A veiculação da “entrevista” do deputado José Genoino (PT-SP) pelo CQC na semana passada – 25 de março – é mais um capítulo lamentável da história recente da televisão brasileira. A forma como foi obtida a declaração do parlamentar e o alarde sobre o conteúdo dela permitem refletir sobre a qualidade da programação da TV aberta, sobre a ética da comunicação e sobre o papel da mídia na sociedade. Não é à toa que a tal “entrevista” tenha se tornado um tema polêmico nas redes sociais na semana que passou, mobilizando opiniões de todas as cores.

Exibido pela TV Bandeirantes desde 2008, o CQC é um dos programas de maior sucesso da emissora, reproduzindo o formato original argentino em que seus apresentadores perseguem celebridades e políticos “custe o que custar”. Trajados com ternos pretos e óculos escuros, os CQCs parecem ter uma única missão: constranger seus entrevistados, fazendo perguntas capciosas ou flagrando-os em situações de embaraço. O desconforto dos abordados fica visível quando percebem a abordagem, e isso gera a “graça” do programa. O efeito desejado é que o CQC cumpre uma certa vingança do espectador ao mostrar o quão ridículo é aquele ator famoso ou quão patético é o poderoso político. Mas será mesmo?

Simulação

Com humor ácido, aparentemente sem piedade e determinado a expor seus entrevistados ao vexame, o programa recorre a técnicas jornalísticas, mas o CQC não faz jornalismo! Seu elenco persegue fontes, confronta versões, cerca os poderosos e provoca os entrevistados com suas indagações de duplo sentido. O bom jornalismo também pode se valer disso, mas o fato de o CQC lançar mão de técnicas jornalísticas não é suficiente para enquadrá-lo como um programa jornalístico. Afinal, o que caracteriza uma profissão ou atividade não é exclusivamente o uso de técnicas, mas também uma ética específica, a adoção de uma cultura profissional, um conjunto de conhecimentos próprios, um foco e uma vocação. O CQC recorre ao estilo jornalístico por conveniência e não por vocação, já que sua busca é o riso, o humor, a diversão do espectador. O CQC se vale do verniz jornalístico para ter acesso a certos ambientes, pessoas e circunstâncias. Portanto, mimetiza, imita, simula o jornalismo.

Alguém pode argumentar que o CQC seja um gênero híbrido, o que me parece uma segunda falácia, uma saída honrosa para não ser nem uma coisa nem outra e ampliar assim suas possibilidades de produção, criar novos quadros e veicular outros conteúdos.

Outros três fatores mostram como o CQC não é um programa jornalístico: todos os prêmios que recebeu até então – entre os quais o da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) – são na condição de programa humorístico; a produção não está sob responsabilidade da direção de jornalismo da emissora; e a própria Bandeirantes afirmou que o CQC faz humor, em resposta ao questionamento de Maurício Stycer, colunista do UOL, sobre o caso de José Genoino. Dessa forma, quando o CQC diz que está prestando um serviço jornalístico, não é propriamente verdadeiro, mas apenas uma declaração genérica que pode confundir o público.

A “entrevista” de José Genoino veiculada em 25 de março é um exemplo dessa confusão. Há meses, o programa aborda o deputado com perguntas embaraçosas, buscando uma declaração sobre o caso do mensalão. Claramente contrariado, o político se nega a falar, tranca o rosto e tenta escapar do cerco. Foi assim diversas vezes, e o silêncio de Genoino se tornou parte de uma anedota no programa. Obter uma resposta se tornou uma questão de honra do programa que incomoda os poderosos, custe o que custar. Daí que a produção recorreu a uma estratégia inusitada para extrair declarações do político, escalando uma criança para fazer isso. O menino João Pedro Carvalho tem dez anos e é ator. Ele se passou por uma criança que queria um autógrafo de Genoino em um livro, acompanhado por seu suposto pai. Ambos foram recebidos no gabinete do parlamentar em Brasília, e no encontro, o garoto fez perguntas ambíguas sobre corrupção e o caso do mensalão. Num misto de malícia e ingenuidade, o menino faz o trabalho dos homens de terno do CQC e constrange Genoino, que deixa escapar a frase “O PSDB não foi condenado no Mensalão porque tem lábia”. A declaração se torna o “gancho” da “entrevista”, e é alardeado pelos apresentadores como se fosse uma vitória conseguir que o político falasse ao programa e apresentasse algo realmente novo no caso. Nem uma coisa nem outra.

Condenação

Antes que me acusem de estar protegendo José Genoino, reforço: ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal no caso do mensalão, deve responder por isso, e é lamentável que ainda esteja ocupando uma cadeira no parlamento brasileiro. Seu julgamento e condenação são fatos e foram exaustivamente acompanhados pela sociedade brasileira. A assunção de uma vaga na Câmara de Deputados é absurda, nesse contexto, já que suscita a impressão de que Genoino foi premiado e não condenado… Desta forma, não estou a ignorar o ocorrido com o político, apenas questiono a forma como o CQC retornou ao caso, passando ao seu público a impressão de que havia obtido alguma novidade.

Em termos de informação, a “declaração” de Genoino não traz nenhum dado novo ao caso, pois se trata de uma opinião pessoal, um juízo particular. Nos termos da ética jornalística, a forma como foi obtida a “entrevista” é altamente questionável. Criar uma cilada para conseguir a fala do deputado é legítimo? Usar uma criança para abordá-lo e “extrair” informação é apropriado? Convencer um ator mirim a se passar por uma criança que faz perguntas inocentes é correto? Quando é admissível captar imagens em ambiente privado, sem conhecimento da fonte? A obtenção da fala do político justifica qualquer tipo de abordagem, como mentir e usar falsa identidade? Em nome do que se pode fazer isso?

Alguém pode contra-argumentar: Genoino foi condenado pelo STF, é um corrupto atestado pela maior corte do país, e merece isso! Eu pergunto: essa condenação nos permite fazer qualquer tipo de ataque? Ao ser condenada por corrupção, uma pessoa perde todos os seus demais direitos, como a privacidade, intimidade e respeito mínimo? Sob o selo da condenação, tudo pode ser feito contra uma pessoa? Não estaríamos ampliando sua pena? Agindo assim, não estaríamos todos praticando um linchamento social superior à sentença determinada pela justiça?

A “entrevista” de Genoino ao CQC nos incita a pensar sobre limites para o humor, o jornalismo e a comunicação de massa. Evidentemente, não se trata de censura de Estado ou coisa semelhante. Não é o Estado quem tem que arbitrar sobre isso, mas a sociedade, a comunidade para a qual a programação é dirigida. Independente de ser jornalístico ou humorístico, o CQC é um programa transmitido massivamente por sinal público de radiodifusão, que depende de concessão pública. Essa licença é dada pelo Congresso Nacional, tem duração prevista e contrapartidas sociais e culturais previstas em lei. Isto é, existem limites legais para os conteúdos veiculados, que devem atender às expectativas da sociedade e não contrariar os seus interesses. Mas além dos limites da lei, há algo que os precede: a noção da conveniência e oportunidade. A própria classe artística – os humoristas do CQC – deve ter alguma noção de limite, de algum momento ou circunstância de total inconveniência de uma piada ou abordagem. É apropriado, por exemplo, fazer piadas desrespeitosas sobre uma pessoa no seu funeral? É admissível gozar com alguém que esteja em situação vexatória, humilhante ou vulnerável? Isso é autocensura? Não é, eu chamo isso de compostura, de limite último, aquele que garante um mínimo de respeito pelo outro.

Notem que respeitar não é reverenciar. Tratar outra pessoa com respeito não é se curvar a ela, submeter-se ou enaltecê-la. É apenas tratá-la como uma igual. Equipará-la a si mesmo. Ter consideração é, então, admitir que à sua frente haja alguém que mereça algum respeito ou atenção. É a drástica diferença entre tratar alguém como sujeito ou como objeto. No caso do humorismo, é a distinção entre rir com alguém ou rir de alguém. Parece pouco, mas não é.

Reflexão

Perde o humorismo com essas diferenças? Talvez. Mas perdemos todos muito mais se mantivermos as coisas como estão. No caso em que discutimos aqui, o CQC não apenas desrespeitou a pessoa José Genoino, mas também seu público na medida em que subestimou sua inteligência dizendo que o político havia falado ao programa. Não falou. Ele estava conversando com um menino em seu gabinete e o que disse foi simplesmente irrelevante, típico do pior jornalismo declaratório.

A estratégia do CQC para fazer o político falar “custe o que custar” equivale, guardadas as devidas proporções, a quando o repórter levanta o queixo do algemado na delegacia, para que a câmera possa captar a imagem de seu rosto, tão característica de programas policialescos. Forçar a falar é forçar a se mostrar, tipicamente justiceiro. As situações do algemado na delegacia e do político enganado são bem distintas, mas ambas nos levam a pensar: mesmo tendo feito atrocidades, podemos extrair e anular todos os outros direitos dessas pessoas? É o jornalismo quem julga o caráter das pessoas? Humoristas são vingadores da sociedade? Os meios de comunicação podem “compensar” as injustiças sociais que colecionamos diariamente? A mídia é o novo judiciário?

Os questionamentos acima me causam calafrios porque apontam para uma situação bastante perigosa em termos de controle social e ausência total de limites para alguns atores ou organizações. Não acho que o Estado possa arbitrar sobre tudo na vida humana, nem que a mídia possa prescindir de limites. A sociedade é muito complexa e todo poder precisa – por definição – ter limites, sob risco de ficarmos reféns dele. É lamentável o caso Genoino-CQC, mas por outro lado esta é uma grande oportunidade para discutirmos que TV nós queremos, que TV esperamos, qual TV podemos ter.

Autor:Rogério ChristofolettiProfessor da UFSC e pesquisador do objETHOS

RELATED ARTICLES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Most Popular

Recent Comments

Daniel A. Santos on Legislação dos jornalistas
Antônio Carlos Costa on As multidões e os protestos
FERNANDO MARGHETTI NUNES on Dez desejos para o jornalismo em 2016
leonelcamasao on Legislação dos jornalistas
Maria Tercilia Bastos on Nota de pesar
valmor on Convênios
Vilma Gomes Pinho on Convênios