InícioOPINIÃO1 Desafio do Brasil: crescer com desenvolvimento social e distribuição de renda

1 Desafio do Brasil: crescer com desenvolvimento social e distribuição de renda

O aumento da inflação em janeiro, maior taxa mensal nos últimos anos, deixou alguns setores da opinião pública e de produção de dados econômicos, bastante agitados e defendendo insistentemente, a elevação dos juros básicos da economia, preferencialmente já na próxima reunião do Copom. Setores que vivem da especulação financeira se apressaram em espalhar a ideia de que o governo estaria se preparando para combater a inflação através do aumento dos juros. A questão é que, elevação de juros como receita para o tipo de problema colocado não resiste à análise, por primária que seja.

A pressão inflacionária atual, ao que tudo indica, está relacionada à queda na produção de alguns produtos agrícolas de alto consumo, causada por sérios problemas na agricultura, como a seca no Nordeste (a maior das últimas décadas) e aos sérios desastres climáticos no Sul do País. Sintoma disso é que, dos 10 grupos que compõem o Índice de Custo de Vida (ICV-DIEESE), que acumulou 6,89% nos últimos 12 meses até janeiro, dois apresentaram variações bem superiores à inflação: Despesas Pessoais (21,65%) e Alimentação (11,37%). Os índices calculados pelo IBGE revelam o mesmo fenômeno: ao longo de 2012, o grupo Alimentação e Bebidas, o de maior peso no Índice de preços ao Consumidor Amplo (IPCA-IBGE), teve um aumento de 9,86%, contra 7,18% em 2011.

Numa conjuntura de elevação dos preços de alguns itens, e com a continuidade da geração de empregos e do crescimento da massa salarial (6,7% em 2012), que permite que os trabalhadores, especialmente os localizados na base da pirâmide salarial, possam continuar consumindo, é normal que haja uma pressão nos preços. É relevante observar que, mesmo com a redução dos juros a patamares historicamente baixos em 2012, a inflação permaneceu em nível inferior ao ano anterior.

Apesar da grande preocupação que o governo vem demonstrando com o problema inflacionário (correta e necessária) dificilmente o combate à elevação dos preços será centrado num só vetor, especialmente no aumento dos juros. Podem ser usadas, por exemplo, a ampliação das renúncias fiscais decorrentes de desonerações da folha de salários e o governo já anunciou a desoneração de impostos dos produtos que compõem a cesta básica. Ademais, os preços dos alimentos já deram uma aliviada em fevereiro, como mostram os dados da cesta básica calculada pelo DIEESE. Outros fatores 2 importantes é que, em fevereiro, teremos o impacto “cheio” da redução dos preços nas contas de luz em todo o Brasil e a previsão é de safra agrícola recorde neste ano, o que também alivia as pressões inflacionárias. O importante, no debate sobre o aumento da inflação é separar as causas efetivas do fenômeno, do jogo de cena de alguns, que agem como se o país tivesse perdido o controle dos preços, com o inconfessável objetivo de pressionar pela elevação dos juros para melhorar os seus ganhos.

Além de continuar vigilante com o controle da inflação, o Brasil tem o desafio de retomar o crescimento neste ano. Para tanto é fundamental que os investimentos públicos decolem, puxando o setor privado e o crescimento do PIB. O baixo crescimento verificado no ano passado teve como uma causa principal o sofrível desempenho do setor industrial. O hiato entre a indústria (queda de -2,7% em 2012) e o comércio (que cresceu 8,4%), que é muito significativo, tem dado a dinâmica recente da economia brasileira. Numa economia que vem gerando empregos e a massa salarial vem expandindo, parcelas crescentes da população passam a adquirir bens duráveis e a acessar serviços que antes não podiam consumir. Não por acaso, nos últimos 12 meses, enquanto o ICV-DIEESE acumulou 6,88%, o item Despesas Pessoais chegou a 21,65%. O problema é que parcela crescente desse aumento do consumo tem sido suprida com importações, como revela o déficit recorde da indústria de transformação em 2012, de US$ 51,6 bilhões. Ou seja, uma parte da demanda por produtos industriais tem vazado para o exterior, o que desestimula investimentos.

Uma variável fundamental neste ano, como sempre, será o câmbio, que continua valorizado. A boa política cambial, como se sabe, não admite movimentos bruscos. Se amoeda se valoriza, há uma maior dificuldade para as exportações industriais e um maior estímulo para as importações, como vêm ocorrendo há vários anos no Brasil. Tem que ir desvalorizando com cuidado, sempre observando o comportamento dos preços. É fundamental desvalorizar o câmbio pelas simples razão de que o Brasil tem a difícil tarefa de conciliar crescimento robusto com desenvolvimento social. Nessa equação, uma indústria forte e competitiva parece ser uma componente fundamental.

Autor:José Álvaro de Lima CardosoEconomista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina

RELATED ARTICLES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Most Popular

Recent Comments

Daniel A. Santos on Legislação dos jornalistas
Antônio Carlos Costa on As multidões e os protestos
FERNANDO MARGHETTI NUNES on Dez desejos para o jornalismo em 2016
leonelcamasao on Legislação dos jornalistas
Maria Tercilia Bastos on Nota de pesar
valmor on Convênios
Vilma Gomes Pinho on Convênios