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Uma desculpa conveniente para as demissões no Washington Post

por Rogério Christofoletti

A recente demissão de 300 jornalistas no Washington Post reativou o surrado discurso de que o jornal está em crise porque não se adaptou aos novos tempos. A ideia por trás desse argumento é de que empresas muito grandes já não são bem recebidas pela realidade atual, e elas devem ser punidas por não se adequar. A imagem-clichê é a de um obsoleto paquiderme caminhando cansadamente para seu destino final, um cemitério de elefantes. Sustentam o argumento as afirmações de que o jornal não tem o desempenho esperado. Ou, para usar as palavras de um analista neste Observatório na semana passada, a culpa é da “incapacidade das empresas jornalísticas em lidar com a verdadeira disrupção gerada pela ascensão da internet comercial”. Convenhamos: uma justificativa bem conveniente para aqueles que aceleraram a crise do jornalismo e se beneficiam com a terra arrasada restante.

Segundo essa lógica, não há outra saída a não ser cortar na carne: reduzir a equipe, enxugar a empresa e reposicioná-la no mercado. Ou se você preferir não adotar os eufemismos gerenciais: desempregar pessoas e encolher a tal ponto para que a empresa não seja mais capaz de fazer o que promete. No caso do WP é convencer o senso comum de que manter algum jornalismo crítico e independente é simplesmente inviável. Melhor deixar de lado. Conformista, a conclusão mascara a complexidade das crises que corroem os alicerces do jornalismo e camufla a mentalidade que insiste em extingui-lo.

Considerar que as demissões são inevitáveis porque o jornal não se adaptou é bastante vantajoso para seu comprador, Jeff Bezos. Afinal, quando o negócio se concretizou em 2013, uma robusta operação de relações públicas moldou a ideia de que se tratava de um gesto cívico, a parcela pessoal do oligarca digital para ajudar a salvar a democracia dos Estados Unidos. Anos depois, fica a impressão de que Bezos tentou salvar o jornal, mas não teve jeito. Pena!

Notem como o enredo é oportuno porque não revela o papel das big techs no ocaso do jornalismo. Vale lembrar:

  1. Nas últimas duas décadas, as plataformas digitais desviaram o rio de verbas que tradicionalmente irrigava os meios jornalísticos, criando um duopólio no mercado de publicidade (Alphabet & Meta) que beneficia quase que majoritariamente seu ecossistema.
  1. Paulatinamente, as big techs disseminaram no senso comum a falsa ideia de que, na internet, tudo deve ser de graça. Essa falácia contribui para desestimular as audiências a pagar por notícias, acelerando assim a desvalorização do produto da indústria jornalística.
  1. As big techs trabalharam fortemente para tornar a internet um terreno de oligopólios, capturando a audiência das notícias e reduzindo drasticamente e ao seu bel prazer o alcance na distribuição de conteúdos jornalísticos.
  1. Enquanto tudo isso acontecia, as big techs se aproveitaram dos conteúdos informativos e se beneficiaram com o tráfego dos sites jornalísticos, sem remunerar profissionais ou empresas por isso.
  1. Depois de criar gargalos de audiência e de estrangular a distribuição de notícias, as big techs instalaram catracas digitais, obrigando, na prática, a indústria jornalística a pagar impulsionamento para chegar aos seus públicos.
  1. Não completamente contentes, as big techs passaram a se apropriar de acervos colossais das empresas jornalísticas (de pessoas e de outras organizações) para treinar suas soluções de inteligência artificial para, depois, vendê-las ao jornalismo…

É bem verdade que as plataformas digitais não foram as únicas responsáveis pela deterioração rápida do jornalismo como negócio e como conversa pública. Nos últimos anos, há um acúmulo de erros e insuficiências da indústria de notícias que também comprometeu sua credibilidade e sustentabilidade financeira. Mas como se pode ver nos parágrafos anteriores, a contribuição das big techs para soterrar o jornalismo não foi episódica, mas impiedosamente predatória.

Não dá pra ignorar, por exemplo, que o dono do Washington Post domina uma expressiva fatia do varejo eletrônico, é o rei dos serviços digitais em nuvem, e tem operações em outros segmentos essenciais para este capitalismo tecnológico que se move como pragas de gafanhotos.

Existe uma responsabilidade real das big techs e de seu ecossistema para a decadência do jornalismo, para o enfraquecimento das democracias, para o aumento da insegurança coletiva e para o esfarelamento de direitos humanos como a privacidade e o direito à informação. É preciso deixar muito clara essa parcela de culpa e cobrar desses gigantes tecnológicos a sua responsabilidade pelo que estamos colhendo no momento. Curiosamente, denunciar desvios e fiscalizar poderes são duas funções do jornalismo.

Não sejamos ingênuos. As 300 demissões no Washington Post não foram as primeiras e nem serão as últimas na história do asfixiamento das organizações de notícia. Parece cada vez mais claro também que o ecossistema tecnológico não tolera redações que arriscam ser críticas ou insinuam ser independentes. Como é praxe, os poderosos não aceitam ser contestados.

Historicamente, ameaçar e fechar postos de trabalho sempre foram as cartadas mais usadas na chantagem dos donos de meios de produção diante de possíveis ameaças ou meros questionamentos. Na maior parte das vezes, as empresas preferem sacrificar empregos em vez de mexer nos próprios ganhos e dividendos. No esticar da corda, o discurso de que a medida é inevitável causa um primeiro efeito: impedir que as demissões sejam reclamadas ou criticadas. Afinal, o que se pode contestar diante do inevitável?

Mas a justificativa de que as demissões são o resultado da incapacidade de adaptação das empresas é duplamente perversa. A primeira perversidade é absolver as big techs nas crises que corroem o jornalismo. Se o jornalismo é mesmo importante para a democracia e a vida social contemporânea, precisamos inventar formas de mantê-lo forte e atuante, a despeito das lógicas exclusivamente mercantis e capitalistas. Se a informação é um bem público, quem a produz deve se guiar por outros valores e pelo interesse coletivo.

A segunda perversidade é culpar a vítima pelo mal que está sofrendo, fazendo-a pagar por isso. Parece a história de quem culpa o doente gripado por ter dormido sem camisa. Gripe não se pega por exposição ao frio, mas pela ação de um vírus. Deixar de falar do vírus não ajuda o doente, só ajuda o vírus e não combate a doença.

***
Rogério Christofoletti é professor de jornalismo na UFSC, pesquisador do CNPq e líder do Laboratório de Qualidade Informativa (Qual-i). Autor do livro “A crise do jornalismo tem solução?” (Estação das Letras e Cores, 2019).

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