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Meio bilhão em publicidade pública, mas nenhum aumento real para os jornalistas de Santa Catarina

Empresas de comunicação recebem milhões em verbas do Governo do Estado, mas alegam dificuldades financeiras para reajustar salários. Após cinco meses de negociação, empresários rejeitam até mesmo proposta de reajuste de 6,49% e criação de grupo de trabalho para discutir a defasagem salarial da categoria.

O dinheiro dos impostos pagos pelos catarinenses ajuda a financiar um mercado milionário de publicidade nos veículos de comunicação de Santa Catarina. Entre 2023 e 2026, o Governo do Estado empenhou mais de R$ 501 milhões em publicidade e propaganda. Parte desses recursos foi destinada a empresas jornalísticas que, apesar das receitas provenientes de contratos públicos, alegam dificuldades financeiras para conceder qualquer aumento real aos seus trabalhadores.

Atualmente, o piso salarial dos jornalistas catarinenses é de R$ 3.399,54, valor mais de R$ 1,7 mil abaixo da remuneração de referência apontada por um estudo técnico independente da Mulinari Assessoria Econômica. A análise considera dados do mercado de trabalho e as exigências de formação e qualificação da profissão.

A defasagem é resultado de seis anos sem ganho real, marcados por negociações frustradas, reajustes insuficientes e resistência patronal à recuperação das perdas salariais. Em 2020, durante a pandemia, a categoria ficou sem uma nova Convenção Coletiva de Trabalho. Em maio de 2022, as perdas acumuladas já chegavam a 23,9%. Desde então, os reajustes negociados não foram suficientes para recuperar o poder de compra dos jornalistas.

Em 2026, os empresários insistem em repetir a mesma fórmula.

Desde maio, o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina (SJSC) tenta negociar a recuperação das perdas acumuladas pela categoria. Do outro lado da mesa, os representantes patronais mantêm, desde o primeiro encontro, uma única proposta: reposição da inflação, sem qualquer ganho real.

Jornalistas reduziram reivindicações, mas empresários não cederam

A campanha salarial começou com uma reivindicação aprovada por unanimidade em assembleia: a fixação de um novo piso de R$ 5.170 mensais, tendo como referência o estudo da Mulinari Assessoria Econômica.

Dados apresentados pelo Sindicato também indicam que a remuneração média dos jornalistas de Santa Catarina é cerca de 40% inferior à média nacional.

A proposta das empresas é aplicar o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) de 4,11%, o equivalente a aproximadamente R$ 140 sobre o piso atual. O reajuste apenas recompõe a inflação do período, sem qualquer ganho real.

Diante da resistência patronal, o SJSC apresentou sucessivas alternativas na tentativa de construir um acordo, incluindo uma proposta de escalonamento do reajuste.

Todas foram recusadas pelos representantes das empresas, que, segundo o Sindicato, não apresentaram justificativas financeiras capazes de sustentar as negativas diante dos dados reunidos pelos trabalhadores.

A última proposta dos jornalistas foi aplicar ao menos o reajuste de 6,49%, índice de atualização do piso regional de Santa Catarina, e criar um grupo de trabalho entre representantes das empresas e dos trabalhadores para estudar uma recomposição salarial justa.

A proposta representaria um reajuste de aproximadamente R$ 220 sobre o piso atual, elevando-o para cerca de R$ 3.620. Embora ainda distante dos R$ 5.170 reivindicados inicialmente, permitiria um avanço imediato enquanto as duas partes discutiriam soluções para a defasagem histórica da categoria.

Nem isso foi aceito.

Os empresários rejeitaram tanto o reajuste de 6,49% quanto a criação do grupo de trabalho, mantendo a proposta de ganho real zero.

Para o SJSC, a postura patronal demonstra intransigência diante de uma categoria que acumula anos de perdas salariais, sobrecarga de trabalho e deterioração das condições de exercício profissional.

Empresas recebem milhões dos impostos dos catarinenses

A alegação de crise financeira apresentada pelos empresários contrasta com a expansão dos investimentos públicos em publicidade e propaganda no estado.

Dados do Portal da Transparência, reunidos pelo SJSC, mostram que o Governo de Santa Catarina empenhou R$ 501,9 milhões nessas despesas entre 2023 e 2026.

Somente em 2025, foram R$ 216 milhões empenhados, um crescimento de aproximadamente 75% em relação aos R$ 123 milhões registrados em 2024.

Entre os beneficiários identificados pelo levantamento do Sindicato estão alguns dos maiores grupos de comunicação de Santa Catarina, que também figuram entre os principais empregadores de jornalistas do estado.

Empresas do grupo NSC, afiliado da Globo, receberam mais de R$ 90 milhões em recursos públicos, segundo o levantamento do SJSC. Já empresas do Grupo ND receberam quase R$ 60 milhões.

Os recursos são provenientes dos impostos pagos pela população catarinense e destinados à contratação de serviços de publicidade e propaganda.

O levantamento também identifica pagamentos recorrentes a veículos de menor porte, incluindo jornais do interior e portais de notícias, e que igualmente alegam dificuldades financeiras.

Para o Sindicato, é inadmissível que os recursos públicos destinados às empresas jornalísticas contribuam para sustentar suas atividades econômicas sem que isso se traduza também em valorização dos profissionais responsáveis pela produção da informação.

O SJSC defende, inclusive, que as verbas públicas de publicidade destinadas a empresas jornalísticas sejam direcionadas a veículos que empreguem jornalistas profissionais. A proposta busca valorizar o exercício regular da profissão e evitar que recursos públicos sejam destinados a meios que não mantenham estruturas profissionais de produção jornalística.

 

Se há recursos públicos milionários destinados à publicidade nos veículos de comunicação, por que as empresas não conseguem conceder nenhum aumento real aos profissionais que produzem a informação?

Essa é uma das perguntas que o Sindicato leva à mesa de negociação e que as empresas não conseguemresponder.

Até o momento, os representantes patronais não apresentaram demonstrativos financeiros que permitam avaliar a alegada crise econômica utilizada como justificativa para a recusa em conceder aumento real.

Para o SJSC, a discussão sobre as condições financeiras das empresas precisa ser acompanhada de transparência, especialmente diante da relevância dos recursos públicos destinados ao setor.

“Não é o salário do motorista que está bom, é o do jornalista que está ruim”

A campanha salarial também ganhou repercussão fora das redações e chegou aos parlamentos catarinenses.

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina e as câmaras municipais de Florianópolis, Criciúma e Joinville aprovaram, por unanimidade, moções de apoio à valorização salarial dos jornalistas.

Em Florianópolis, o vereador Gemada (Podemos) chamou a atenção para a defasagem da remuneração da categoria ao compará-la com os salários dos trabalhadores do transporte coletivo.

Segundo o parlamentar, um motorista de ônibus recebe atualmente salário bruto de aproximadamente R$ 4 mil, além de R$ 1,2 mil em benefícios, enquanto o piso dos jornalistas catarinenses permanece em R$ 3.399,54.

“Não é o salário do motorista que está bom, é o do jornalista que está ruim”, afirmou o vereador ao manifestar apoio à categoria.

A comparação reforça uma das principais reivindicações da campanha: a necessidade de uma remuneração compatível com a formação, a qualificação e a responsabilidade exigidas dos profissionais do jornalismo.

Má-fé patronal e seis anos sem ganho real

O histórico apresentado pelo SJSC durante a mediação realizada na Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE) expõe as manobras das empresas de comuicação para ampliar suas margens de lucro diante da defasagem salarial da categoria.

Em 2020, durante a pandemia de Covid-19, as dificuldades para realizar assembleias e reuniões de negociação impediram a celebração de uma nova Convenção Coletiva de Trabalho. Sem a reposição integral da inflação, as perdas se acumularam e, em maio de 2022, a defasagem salarial já chegava a 23,9%.

Diante desse cenário, os jornalistas recorreram à Justiça do Trabalho para buscar a recuperação das perdas referentes aos períodos de 2019-2020 e 2020-2021.

Mas, em vez de aceitar que a Justiça analisasse o conflito, os empresários se recusaram a concordar com a instauração do dissídio coletivo de natureza econômica. A decisão impediu que a reivindicação dos trabalhadores fosse apreciada pela via judicial pretendida pelo Sindicato.

Nos anos seguintes, os reajustes negociados foram insuficientes para recuperar as perdas acumuladas. O resultado é uma categoria que chega a 2026 com salários cada vez mais distantes do custo de vida e da remuneração compatível com a responsabilidade da profissão.

Durante dois encontros de mediação na SRTE, os mediadores observaram, conforme relato do SJSC, que não seria razoável a ausência de qualquer ganho real ao longo dos últimos anos.

Nem mesmo a intervenção dos mediadores foi suficiente para alterar a posição patronal. Os empresários mantiveram a proposta inicial, rejeitando as alternativas apresentadas pelos trabalhadores e mediadores.

Para a diretoria do SJSC, a postura dos empresários levanta sérios questionamentos sobre a boa-fé nas negociações coletivas. Embora compareçam às reuniões, os representantes patronais se recusam a discutir qualquer alternativa que represente ganho real, transformando a mesa de negociação em uma mera formalidade sem avanços concretos.

O Sindicato reafirma que negociar não pode significar apenas comparecer às reuniões para repetir sucessivamente a mesma proposta. É preciso disposição efetiva para o diálogo, apresentação de contrapropostas e compromisso com a construção de um acordo.

Depois de seis anos sem ganho real, os jornalistas catarinenses não aceitam que a intransigência patronal continue sendo a única resposta às suas reivindicações.

A categoria não está pedindo um privilégio. Está reivindicando a recuperação de perdas salariais e uma remuneração compatível com a importância e a responsabilidade da profissão.

O SJSC convoca os jornalistas a acompanharem a campanha e a participarem das próximas ações em defesa da valorização profissional.

A sociedade também precisa conhecer essa realidade: parte do dinheiro que financia a publicidade nos veículos de comunicação vem dos impostos pagos pela população. E os profissionais que produzem a informação nesses mesmos veículos seguem trabalhando em condições cada vez mais precárias, sem qualquer perspectiva de aumento real.

Jornalista não vive de manchete. Vive de salário.

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